CENTRO TERESIANO DE ESPIRITUALIDADE
Antecedentes históricos
Os Carmelitas Descalços em São Roque
Frei César Cardoso de Resende, ocd
Escrever a história é um desafio nada fácil. Primeiro porque trata-se de uma reconstrução quase impossível de fatos que chegam até nós em meios dispersos e muitas vezes suspeitos: fotos, anotações, documentos, memórias particulares de quem os viveu, marcas arquitetônicas, objetos. Em muitos destes meios há apenas indícios do que aconteceu. Alguns são sínteses de acontecimentos, cujos detalhes se perderam. Mas é preciso resgatar o que é possível, mesmo porque a história não é uma simples sucessão de eventos, mas uma cumplicidade de ânimos, pois o passado dos que nos precederam é alicerce do que somos, e o que vivemos e somos prepara o caminho dos que nos seguirão.
A celebração do jubileu áureo do Centro Teresiano de Espiritualidade nos deu uma oportunidade grande para rever a história desta casa e entusiasmar o coração daqueles que Deus continua chamando para o seguir no Carmelo, perpetuando a missão que Ele nos confiou. Neste sentido escrevo este artigo, procurando clarear datas e acontecimentos, os mais importantes, os que pude coletar, para que depois alguém possa debruçar-se mais detidamente sobre nossa história, e ter a experiência única do garimpeiro que encontra, no árduo trabalho de investigar e interpretar, o ouro escondido no passado e, encontrando-o, possa dispô-lo ao nosso presente e futuro, tornando-o mais belo e luminoso.
Os Carmelitas Descalços no Brasil
Foi a Província de São Filipe, de Portugal que, no período de maior expansão da Reforma, fundou o primeiro convento no Brasil. Tendo chegado à Bahia em 1663, fundaram o convento Santa Teresa em 1665. Uma das grandes motivações de se fundar no Brasil era pelo fato de que as caravelas que se dirigiam para a África deviam fazer escala na América, devido às correntes de ar; caso contrário os navios e a vela arriscavam-se de ficar parados no meio do atlântico. O convento no Brasil serviria de permanência temporário para os missionários africanos. Também fundaram em Olinda e assumiram diversas missões n o sertão do Rio São Francisco.
A fundação durou até a independência do Brasil de Portugal. Por serem súditos do superior portugueses, em 1840 os descalços tiveram que deixar o convento retornando ao seu país.
Os Carmelitas Descalços da Bahia estiveram também no Rio de janeiro em 1714 a 1716. Em 1741 o então bispo do Rio, D. João da Cruz, traz para o Rio frades de Portugal. Os frades permaneceram no Rio até 1830.
Mas foi o início do século XX que favoreceu o estabelecimento firme e a expansão dos Carmelitas no Brasil. Em 1911 frades espanhóis fundam no Sul do país, enquanto os italianos fundam no Sudeste.
A Província Romana e suas fundações no Brasil
No início do século XX a Ordem conhece uma nova expansão. Depois de ter sofrido a extinção de muitos dos seus conventos na Europa, por obra das revoluções e sistemas políticos adversos, retornada a paz, empreendida a restauração, a Ordem conhece um momento de retomada missionária. A Província Romana inseriu-se neste novo movimento e escolheu o Brasil como campo para suas missões.
Os frades romanos fundaram casas em Bom Jesus do Córrego - MG (1911-1919), Cambuí – MG (1911-1922), Capivari - MG (1911-1961), S. Bento do Sapucaí - SP (1914-1927), Cataguases - MG (1923), Rio de Janeiro (1920), São Paulo (1923). De todas estas fundações foram as do Rio e São Paulo que se firmaram.
A fundação de São Roque
Em 1948, com os dois conventos do Rio e de São Paulo definitivamente instalados e gerando grandes frutos - o convento do Rio de Janeiro, em especial tem uma grande irradiação neste tempo, pela grande devoção que o povo brasileiro tem a Santa Teresinha -, os frades começam a pensar em uma obra que pudesse acolher as vocações para o Carmelo Descalço. Trata-se de um passo que toda missão deve dar. Já, neste tempo, surgiam vocações para o Carmelo. Era preciso, porém, uma casa adaptada para acolher meninos e jovens que fossem, desde a mais tenra idade, introduzidos no estilo de vida carmelitano.
Todos os testemunhos nos dão conta de que fora frei Alberto de Santa Teresa quem assumiu com todo o coração esta idéia que, com certeza, surgira na alma de mais de um frade. Fora ele que tomou a iniciativa para concretizar o sonho de um seminário menor para o vicariato brasileiro da Província Romana.
É difícil recompor todos os passos que frei Alberto teve que dar até o início da construção do convento em São Roque. O que se pode é nomear as etapas: pedido de permissão e aprovação ao Capítulo Provincial da construção do convento, depois de estabelecer os objetivos e a urgência de uma obra para a formação inicial e acolhida das vocações juvenis; escolha do local, desenho da planta, custos, fontes de renda e tempo da obra.
O porque da cidade de São Roque ter sido a escolhida para a instauração da casa pode ter que ficar para sempre escondido para nós. Podemos presumir que as condições culturais da cidade, formada por imigrantes italianos que trouxeram para cá suas tradições, pode ter influenciado na escolha. Segundo frei Raul o que determinou em frei Alberto a procura de um terreno ideal foi a abundância de água, a proximidade de uma estrada e de uma linha de trem. No terreno escolhido em São Roque as três condições se encontraram. Além disso o seminário arquidiocesano de São Paulo ficava nas redondezas.
Com a aprovação do projeto por parte do Capítulo Provincial e da compra do terreno e instauração dos frades na cidade, além da aprovação de assumirem a Paróquia, dá-se andamento às coisas.
A escritura do terreno em nome da Ordem Carmelitana data de 19 de março de 1948, e traz o preço de Cr$70.000 (setenta mil cruzeiros). Segundo alguns testemunhos grande parte do dinheiro para a compra do terreno fora doado por frei Paulo Maria, mineiro de Nova Serrana, que havia ingressado no Carmelo Descalço, fora pároco em São Roque por um ano, e, tendo passado para o convento de São Paulo, aí permaneceu até sua morte. O terreno, de cerca de 10 alqueires, abrigava, na época, 3 casas em péssimo estado. Tudo, portanto, estava por ser feito.
Com o terreno comprado os frades chegam a São Roque, em finais de 1948. Habitam a casa paroquial no centro da cidade e acompanham as obras que já se iniciam. A primeira comunidade era formada pelos frades Frei Alberto de Santa Teresa, superior, Frei Anselmo do Carmo ( vigário), Frei Paulo Maria do Carmo ( 1º conselheiro), Frei Telésforo do Menino Jesus ( 2º conselheiro) e Frei João Batista de São José, um irmão leigo.
No projeto inicial constava a construção da casa para abrigar o seminário e um grande santuário do lado direito do convento. O Santuário não chegou a ser construído. O trabalho de engenharia foi dirigido por um engenheiro alemão, amigo de frei Venâncio.
Em 1949, com alguns fundamentos já preparados, foi colocada a pedra fundamental, com grande fluxo da população local que tão boa acolhida deu aos carmelitas.
Frei Alberto foi incansável na construção do convento: contactou todos os que podia - monjas de Piracicaba, de Cotia, leigos do Rio e de São Paulo, homens influentes, e gente do povo que, em mutirão, ajudava na elevação da casa, enquanto as mulheres da Ordem Terceira, fundada logo nos primeiros anos da presença dos carmelitas na cidade, ofereciam refeições diárias para os trabalhadores. Para angariar fundos para a obra iniciou-se uma grande campanha, com destaque para uma rifa de um carro ganhado por frei Alberto no Rio de Janeiro. O ganhador foi o próprio frei Alberto.
Dizem que seus dotes para a administração também colaboraram para que a obra fosse rápida, conseguindo os melhores preços e as melhores condições. Também com estas realidades mundanas Santa Madre Teresa teve que se envolver em suas fundações, com a perspicácia conhecida de todos. Um fato interessante da construção são os tijolos, feitos no próprio local, com barro tirado do terreno. A olaria construiu-se num campo aberto atrás do local da construção e o barro era tirado do pântano. No local formou-se depois um lago, com a abundante água que verte incessante no local. Os tijolos traziam a marca: OCD.
Ao Pe. Alberto frei Ludovico escreveu estes versos (02 de setembro de 1958), já no tempo de plena atividade do seminário, recordando a elevação do convento, como um sonho que se torna realidade:
" Quante volte, per grazia del Signore,
Ci radunammo intorno ao P. Alberto
Manifestando gl'impedi del cuore
Armonizzati come um gran concerto!
Tutti ci demmo e sempre e com amore:
A valicar gli abissi, il passo incerto
Movemmo, tra gli affanni e nel calore
Per raccogliere i fiori nel deserto...
Fiori di sogno! Allor tutto era incolto!
Però quel che sognammo era un convento
E pel Carmelo nostro un bel raccolto
Ora chi guarda il bianco Monumento
Si sente immerso nel sorriso il volto
E porge al P. Alberto un complimento.
Por ocasião da celebração do aniversário de frei Alberto, em 1958, os seminaristas e noviços, entre outras coisas, dixaram registrado estas linhas: "exaltemos o nosso querido Padre Superior, revelando seu coraão todo paternal, seu coração incançável; seu coração que palpita de carinho e zelo para cada um de nós. Confirmem este nosso louvor as suas múltiplas atividades que revelam visivelmente a pujança de sua paternidade amorosa. Semelhante a Jesus, cujo coração é um braseiro inapagável, a chama que irradia da sua obra nos conta as insônias, as fadigas e os suores que toma sobre si para não deixar de exercer, com brilho não comum, as suas funções paternas. É um coração vigilante que providencia com solicitude admirável os meios de vida para os seus numerosos filhos.
Eis uma das notas mais características do nosso estimado superior: a providência o constituiu pai de uma numerosa e variada família. Para a vida destes variados membros, são necessárias várias espécies de sustento. Eis o pai cujo coração generoso trabalha para a todos fornecer o alimento comum; ei-lo que se esgota para dar a uma classe de filhos o pão da ciência e a outra, o pão da santidade no estado religioso."
A elevação da primeira parte da casa dura de 1949 até 1953. Durante este tempo a obra não consome o vigor dos frades. O apostolado paroquial exige muito deles, não só no atendimento à população de São Roque, mas às muitas comunidades rurais formadas e que, com o tempo, iam sendo constituídas.
Escola Apostólica de Santa Teresinha
Com a construção da primeira parte do convento, a casa poderá receber a primeira turma de meninos. Estão prontos a portaria, a capela interna, o dormitório para os seminaristas, os quartos dos frades, os refeitórios, a cozinha, a lavanderia.
Era o dia 21 de abril. A ata de inauguração da Escola Apostólica Santa Teresinha (na Ata consta o título de Nossa Senhora do Carmo, mas o título de Santa Teresinha impõe-se depois e aparece em todos os documentos posteriores), registra as pessoas presentes: "com a honras a presidência de sua Eminência Reverendíssima, o Senhor Cardial Mota, seu secretário Rev.mo Padre José Mota, o Rev.mo Reitor do Seminário Arquidiocesano de S. Paulo Padre, Monsenhor Luiz Gonzaga da Silva, demais R.R.P.P. professores do Seminário, 150 seminaristas, o Rev.mo Provincial do Brasil Padre Frei Paulino do Sagrado Coração de Maria, o Rev.mo P. Diretor da Escola Apostólica Nossa Senhora do Carmo Frei Ludovico de Sta. Teresa, o Rev. Pe. Superior da Matriz de Sta. Teresinha de S. Paulo, Frei João Batista de S. José, o Pe. Superior de S. Roque Fr. Venâncio de S. Luiz, dos R.R.P. Padres da ordem: Frei Geraldo, Frei Adeodato, Frei Gabriel, Frei Boaventura, Frei Alberto de Santa Teresa, iniciador do Seminário, autoridades civis: Sr. Prefeito Municipal de S. Roque Dr. Danton Castilho Cabral, o Vice-Prefeito Horacio M. Lanni, delegado de polícia Dr. Benedito Nunes Dias, vereadores Rodolfo Artur Larvetti, Armando Esébio e José Carvalho de Brito, diretores da Caixa Economica Dr. Argeu Vilaça e Alcides Vieira; Dr. Bettini, do D.N.E.R. Sr. Enos Martins, Dr. Renato Vieira, o prior da Ordem Terceira de S. Roque He. Hugo Liegl Junior, a priora da mesma Ordem Ir. Maria do Coração Eucaristico de Jesus, associações paroquiais, particularmente Apostolado da oração, congregados de Nosso Senhor e Filhas de Maria que trabalharam intensamente para o brilho desta festividade com o concurso da Ordem Terceira de S. Paulo cuja priora é Ir. Fernanda do Sagrado Coração de Jesus e outras irmãs, da Ordem Terceira do Rio de Janeiro representado pela prior Ir. Justino Tarcisio de S. Teresinha, da priora Ir. Maria Teresa de Jesus Crucificado e quinze irmãs, senhoras do apostolado e demais associações e S Raul Lopes de Faria e outros congregados, Reverendas irmãs vicentinas de S. Roque, irmãs carmelitas, servas de Maria, pessoas da Ação Católica do Rio D. Guiomar Silva da Rocha e Iris D. Branne, muitos assistentes, convidados de S. Roque, S. Paulo e do Rio cujos nomes nos escaparam. Foi numerosíssima a afluência de pessoas que representavam todas as esferas sociais. Representou a imprensa o jornalista Heito Bocato.
As nove horas da manhã à entrada do edificio foi recebido com palmas e estrondosa oração dos presentes o Rev.mo Cardial de S. Paulo".
Inicia-se a Escola Apostólica, dedicada à formação inicial das vocações ao Carmelo Descalço. Durante 23 anos foram muitos os jovens que por ali passaram, sendo instruídos pelos frades, orando, trabalhando, recreando.
As vocações para o seminário, que chegou a ter mais de 100 alunos, vinham principalmente da região de S. Roque, mas também de Minas Gerais, onde missionava nesta época o frei Telésforo.
A Paróquia de São Roque
Logo com a chegada dos frades a São Roque, o Cardeal Motta, arcebispo de São Paulo, confiou a eles a Paróquia, abrangendo, além da cidade de São Roque, uma vasta área rural. O primeiro Pároco foi Frei Paulo Maria, que ficou um ano no cargo, transferindo-se depois para São Paulo. Seu sucessor fora frei Telésforo do Menino Jesus (Frei Raul), ficando à frente da mesma de 1950 a 1957. Neste tempo o árduo frei Raul trabalhou sem descanso na organização das pastorais, na fundação de novas comunidades, especialmente da comunidade de São João Novo, e nas obras de decoração da igreja matriz. Ali foram realizadas as belas pinturas que decoram todo o interior do templo. Também durante seu governo foram colocados os vitrais que narram a vida de São Roque e adquirida, na Itália, uma relíquia do santo, colocado num rico relicário onde, entre outros motivos artisticamente trabalhados, está o brasão da Ordem Carmelitana.
Frei Raul e os frades estavam muito empenhados em atender os fiéis paroquianos. No entanto a Escola Apostólica exigia a presença dos frades para o ensino e formação dos meninos. Além disso os frades eram escrupulosos na fidelidade à observância religiosa e a exigência da presença do Pároco na comunidade fazia-se constante. Dadas as dificuldades para levar a cabo as duas atividades, a Paróquia foi devolvida à Arquidiocese, com a promessa do cardeal de que, em tempos mais favoráveis pudessem reassumi-la.
Continuidade das obras
Enquanto a Escola Apostólica funciona, as obras para o término da construção continuam até 1957, quando foi concluído todo projeto do convento, ficando apenas no projeto o santuário. A casa estava pronta também para abrigar o noviciado.
Em 1959, para selar o término das obras, fora colocado no centro do claustro, a imagem de S. José, patrono da Igreja e do vicariato.
Em 1955, com a ajuda de benfeitores paulistanos, foi construída uma piscina quase olímpica, para alegria de todos. Quando a Escola Apostólica terminou suas atividades em 1976 a piscina jamais será reativada, a não ser por algumas tentativas não duradouras. O encarecimento da manutenção, o alto preço de uma restauração (pois detectava-se certas rachaduras na parede), a existência de fungos, por ter crescido a área verde ao redor, e o perigo da água parada, levou os frades a construírem uma laje sobre a piscina, servindo para quadra de esportes.
Noviciado
Em 7 de dezembro de 1957 recebem o hábito a primeira turma de noviços, os primeiros frutos da Escola Apostólica. Inaugura-se, portanto, em São Roque, paralelamente ao seminário, o noviciado, uma etapa bem diferente da anterior, dos tempos dos estudos colegiais. Agora, como os próprios noviços do tempo afirmam, " passa-se da vida atribulada dos estudos no Colégio, para o recolhimento interior e mesmo exterior do santo noviciado... Não se trata aqui de transformação externa, como por exemplo o trocar o traje secular pelo sagrado burel, ou o nome do século pelo da religião, mas nos referimos especialmente à renovação e transformação do espírito. Agora não mais apoiados sobre carteiras a decorar regras de matemática ou a sintaxe latina; não mais atribulados a apresentar os exercícios, a dar a lição, mas recolhidos em nossas santas celas, quando não a meditar, a contemplar as maravilhas e misericórdias de Deus e a sua santa lei, "in lege Domini meditantes" ou a rezar, "in orationibus vigilantes"; a fruir em espirituais e ascéticos livros os sagrados ensinamentos dos nossos preceptores, a aprender deles o espírito religiosos, o nosso modo de vida, preparando-nos o futuro, tendendo à perfeição do sublime estado que abraçamos. Tudo deixamos no Colégio. Tudo aqui recebemos, mas em modos diferentes Não são aqui salões ou rotineiros horários de aula ou de jogos, mas celas enclausuradas; não há aqui o barulho dos nossos caros irmãos que lá deixamos, com que convivemos não talvez por pouco tempo, mas é aqui a melodia harmoniosa do ofício divino, o canto melancólico do Miserere ao som das batidas compassadas das cortantes disciplinas; é o salmodiar constante com que nos incorporamos aos anjos e Santos, para louvar a Deus, rezando por aqueles que não rezam. No Colégio deixamos nossos diletíssimos professores, que também nos instruíram; aqui encontramos outros mestres, não agora como antes, a ensinar-nos os múltiplos problemas, as complicadas regências, as construções próprias das diversas línguas; mas a oferecer-nos docência puramente espiritual por meio das suas doutrinas maravilhosas e aspirações de que nos impetram. Afinal tudo mudado! Que contraste! Que diferença! Da vida de estudo, de fadiga, de esforços intelectuais, passamos para o viver solitário pacífico, recolhido, onde procuramos melhor na paz de nossas almas, no nosso interior, no âmago de nossos corações carmelitanos, encontrar e falar com Deus que em nós habita, que fez de nós sua morada. Sós com o Esposo estamos como no-lo diz a humilde carmelita Elisabete da Trindade, cuja admirável missão é atrair almas ao silêncio interior, à vida contemplativa."
O noviciado é marcado pelo exercício do silêncio, pela atenção às realidades espirituais, através do pleno exercício da oração teresiana, da liturgia das horas, da vivência da fraternidade. O esforço de ser bom e virtuoso levou um noviço daqueles tempos a compor a seguinte ladainha: -Santa Maria... toda graça queria; Santo Padre José, que não fale mais no café; Santa Madre Teresa, fazei-me de Deus uma preza; Santa Eufrosina, que não erre na língua latina; São Martinho, que eu trate a todos com carinho; São Dario, socorrei-me no tempo do frio; São Joaquim, que o Padre Mestre tenha dó de mim; Almas do Purgatório, que não esqueça nenhum responsório; Rainha do Monte Carmelo, que eu seja singelo. Oro meu Deus, prostrado, com sincera humildade, que quando for escalado, pra servir a comunidade, não fique meio abobado, mas faça bem direitinho, todo o serviço do dia!"
De 1953 a 1978 foram superiores do convento de São Roque os reverendíssimos freis: Alberto, Venâncio, Ludovico, Gabriel, Lucas, Pedro Paulo, Raul, e Rafael. Dirigiram a Escola Apostólica os reverendíssimos freis: Ludovico, Frncisco, Pio, Redento, Rafael e Guilherme.
Fim da Escola Apostólica
Com os tempos conciliares e as mudanças ocorridas na Igreja e, consequentemente, na vida religiosa, bem como as mudanças sociais, levaram ao encerramento da Escola Apostólica. Isto não significou uma diminuição no número das vocações. A escola formou muitos meninos, mas poucos perseveraram na Ordem. Os tempos eram outros. De 1976 a 1978 frei Guilherme e o Irmão Demétrio ficaram no convento, aguardando um novo destino para a casa.
Nasce o Centro Teresiano de Espiritualidade
Em 1978 o governo central da Ordem estabelece a união dos conventos dos carmelitas descalços fundados no Sudeste do Brasil. Eram três as Províncias que mantinham presença na região: Província Romana (Rio e São Paulo); Província Toscana (Caratinga - MG e Travessão - RJ) e Província Holandesa (Belo Horizonte - MG). Com o início da Delegação Geral do Sudeste Brasileiro o convento de São Roque é reativado, primeiramente como casa de noviciado da nova Delegação.
Durante o tempo em que a casa abrigou o noviciado foram mestres de noviços: frei Bernardino Schreiber, Frei Júlio Refosco, Frei Pierino Orlandini, Frei Rubens Sevilha e Frei João Bonten, mestres cuja função era a de conduzir os noviços à iniciação da vida carmelitana em toda a sua riqueza de oração, vida fraterna, mariana e de apostolado. Com a graça de Deus até os dias de hoje o noviciado jamais foi interrompido. Em 1981, com a elevação do a Delegação a Comissariado, o noviciado em São Roque passou a ser conjunto com o Comissariado do Sul do Brasil. Boa parte deste tempo contou com a valiosa presença de frei Júlio Refosco, exímio mestre, que marcou a vida de muitos frades. O noviciado conjunto permaneceu até 1993.
Abrigando o noviciado a partir de 1978, a casa começou a ser adaptada para poder servir como casa de retiros. A obra de reforma foi conduzida por frei Roque Visca, então delegado geral. Os antigos dormitórios da escola apostólica foram transformados em quartos com capacidade para abrigar duas pessoas. Com a adaptação começaram as atividades espirituais, sob o comando de frei Pierino que foi superior da Comunidade até sua eleição para Comissário Geral em 1990.
As obras duraram dois anos. Em 1990 a Comunidade começa a oferecer cursos e retiros para quantos buscavam o Carmelo para sua experiência de Deus. Nascia assim o Centro Teresiano de Espiritualidade. Conduzido com maestria por frei Pierino, o Centro foi crescendo pouco a pouco, transformando-se em fonte de espiritualidade e referência carmelitana para o Brasil e para a Ordem na América Latina e no mundo. Com a eleição de frei Pierino para Comissário em 1990, assume o Centro Frei Patrício Sciadini. Sob sua direção e com o dinamismo que lhe é próprio o Centro Teresiano conheceu momentos de altíssimo vigor, especialmente para a Vida Religiosa no Brasil. Obras de restauração e embelezamento, especialmente na parte externa do Centro foram feitas entre os anos de 1990 a 1998.
Com a transferência do noviciado para Minas Gerais (Piedade de Caratinga) em 1996, a casa não deixou de ser um espaço para a formação inicial da Província. Abrigou até 2001 o aspirantado, acolhendo jovens que devem terminar seus estudos básicos ou que devam ser preparados para o ingresso no Postulantado.
Esta é, em resumo, a história do Convento de São Roque, nos seus mais de 50 anos de fundação. Não nos resta outra coisa a fazer, pelas inúmeras graças recebidas, senão cantar as maravilhas que Deus fez por nós, e pedir, por intercessão da Virgem do Carmo e dos Santos do Carmelo, que Ele, a exemplo de tantos frades que escreveram a história do passado, dê, aos frades do presente e do futuro, força e entusiasmo para dedicarem suas vidas na busca e no reflexo do seu rosto a quantos têm sede de vê-Lo.