I. A missão segundo o Carmelo Teresiano
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1. Desde seus começos o Carmelo Teresiano tem uma configuração missionária. Santa Madre Teresa de Jesus (1515-1582) infundiu-lhe esta orientação e esta vocação. Aos 7 anos, conta-nos ela, "acertávamos de ir à terra dos mouros, pedindo por amor de Deus, para que lá nos decapitassem" (Vida 1,5). Foi assim que tramou com seu irmão Rodrigo a fuga da casa paterna.
Escalando o cume de sua maturidade espiritual, experimentou a graça da visão do inferno, rica em conquências e resoluções pessoais. No meio ao que lhe produz interiormente, anota: "Disto também senti a grandíssima pena que me dá as muitas almas que se condenam (desses luteranos em especial, porque já eram pelo Batismo membros da Igreja), e os ímpetos grandes de ganhar almas" (Vida 32,6). Deste desassossego interior nasceu a primeira idéia da Reforma do Carmelo (ibid., 10). Passando pelos veementes capítulos do livro "Caminho de Perfeição", sobretudo o primeiro e o terceiro, recordemos o texto do livro das "Fundações". É clássica a referência à forte sacudida interior que lhe causou a visita do missionário franciscano Alonso Maldonado de Buendía, que vinha das Índias (1566), quando lhe "falou das milhões de almas que lá se perdiam por falta de doutrina. Eu fiquei tão lastimada da perdição de tantas almas, que não me cabia em mim... Clamava a Nosso Senhor, suplicando-lhe que desse remédio e me mostrasse como eu pudesse fazer algo para ganhar uma alma para seu serviço..." (F 1, 7). Em outra ocasião escrevia a seu irmão Lourenzo de Cepeda em Quito: "Unamo-nos para procurar mais sua honra e glória e algum proveito das almas, que é isto o que muito me entristece, o ver tantas perdidas, e esses índios não me custam pouco" (Carta de 17.01.1570). Teresa de Jesus ficará, portanto, subjugada pelo apostolado da redenção dos cativos, evocando o caso que tinha lido na vida de São Paulino de Nola (cf. Meditaciones sobre los Cantares 3,4) e da conversação mantida com o alcantarino Alonso de Cordovilla (ibid., 8). Seis meses antes de sua morte teve conhecimento da primeira expedição missionária dos Carmelitas Descalços, que zarpou do porto de Lisboa no dia 5 de abril de 1582 para terras africanas do reino cristão do Congo. O superior provincial, P. Jerônimo Gracián da Mãe de Deus precisa bem que executou este envio "com o conselho e a ajuda da mesma Madre" Teresa de Jesus (Sermón teresiano, 16BMC 491). 2. Esta determinante marca missionária na orientação e no desenvolvimento da vida da Ordem permaneceu como linha constante no Carmelo Teresiano através de sua história. O ideólogo da vocação missionária do Carmelo, o calagurritano P. João de Jesus Maria, escrevia dos filhos de Teresa: "Não satisfazem suficientemente seu proósito se se dedicam à contemplação só para aperfeiçoar-se a si mesmos, sem aspirar a conversão dos infiéis" (Compendium Vitae B.V. Teresiae a Iesu, Roma, 1609). É sintomático, por exemplo, que o primeiro decreto do Definitório Geral da Ordem em Roma foi para executar um projeto missionário: a fundação de uma Missão na Polônia e de um convento em Sião (Suíça) "para converter hereges com a ajuda de Deus" (cf. Acta Definitorii Generalis OCD - Congregationis S. Eliae (1605-1658), Roma 1985, p.3). Recordemos que o primeiro bispo da família teresiana foi o missionário P. Juan Tadeo Roldán de Santo Eliseu (1574-1633), preconizado ordinário de Isfahán (Pérsia) no dia 6 de setembro de 1632. 3. Desde os começos manteve-se e desenvolveu-se esta tradição missionária no Carmelo de Teresa. Basta recordar suas figuras mais representativas. O primeiro superior provincial da nova Província Carmelitana, P. Jerônimo Gracián (1545-1614), e o Vem. Domingo de Jesús María Ruzola (1559-1630) participaram da fundação da Congregação romana da Propaganda Fide (1622). O P. Juan de Jesús Maria (1564-1615) sistematizou teologicamente a ciência missionária. Ao Ven. P. Tomáz Sánchez Dávila de Jesús (1564-1627) se lhe reconhece como iniciador da Missiologia com seu estudo "De procuranda salute omnium gentium" (Amberes, 1613). Entre os autores clássicos recordamos, entre outros, o P. Próspero do Espírito Santo (1583-1653), que recuperou para a Ordem a colina do Monte Carmelo na Palestina (1631), e ao indólogo austriaco P. Paulino de São Bartolomeu (1748-1806). 4. A vocação missionária do Carmelo reflete-se atualmente em suas Constituições, renovadas segundo o espírito do Concílio Vaticano II. O capítulo 6 tem por título "Missão apostólica da Ordem". Lemos aí em um dos seus números: "A evangelização dos povos ... foi sempre com justiça uma das obras prediletas da Ordem. Com efeito, nossa Madre Santa Teresa marcou sua família com a chama do zelo missionário que a abrasava, e quis que seus filhos trabalhassem também na atividade missionária. Por isso há de se procurar com desvelo que este entusiasmo missionário se mantenha e se propague na Ordem, que todos se interessem pela evangelização dos povos e que se pvomovam as vocações missionárias em todas as partes..." (Const. e Normas OCD, 1986, n. 94). O cume da missionariedade carmelitana é representado por Santa Teresinha do Menino jesus (1873-1897), proclamada no dia 14 de dezembro de 1927 Patrona Universal das Missões, igual a São Francisco Xavier, pelo Papa Pio XI. II. Cronologia da história missionária do Carmelo Descalço 1. As primeiras missões do Carmelo Teresiano (1582 - 1585) a) Os Carmelitas aprovam a ida à "conversão da gentilidade" no momento mesmo em que se organizam como província autônoma (Capítulo de Alcalá - 1581). b) As duas primeiras missões são promovidas pelo P. Gracián, primeiro provincial: visão do Carmelo Descalço como uma Ordem sem fronteiras; atenção aos acontecimentos para responder aos chamados de Deus; as missões estão dentro da finalidade da vida do carmelita descalço. c) A primeira missão, no Congo, é assumida e iniciada na primeira expedição de missionárias quando Santa Madre era viva e dá seu consentimento. A. A primeira missão do Congo: 1582 - O "Kairós" dos reinos do Congo, como campo de evangelização. - Patente de envio de cinco missionários para a "conversão dos gentis" (19 de março de 1582). - Primeira expedição (5 de abril de 1582): naufrágio e morte dos missionários. - Segunda expedição (abril 1583): aprisionamento pelos corsários. - Terceira expedição: chegam três missionários ao Congo em setembro de 1584. - Retorno prematuro (finais de 1586 ou começos de 1587). B. Segunda missão: México nas Índias Ocidentais: 1585 - Patente para a partida de 12 missionários (15.05.1585) "para fundar um convento no México, e daí enviar-lhes a pregar o Santo Evangelho a um novo Reino". - 11 missionários chegam a Veracruz (México) no dia 27 de setembro de 1585.
C. Eclipse da consciência de ter Santa Madre Teresa como Madre Fundadora e do fim apostólico da Ordem: - Durante os governos de Nicolás Doria (1586-1593): visão do Carmelo Descalço como uma Reforma de vida regular; e do governo de Elias de San Martin (1594-1600): tendência eremítica. 2. As missões na Congregação de São José (espanhola - 1597; 1600 - 1835/1875) e na Congregação de São Filipe (portuguesa - 1772 - 1834/1875) Ideologia: o superior geral, Alonso de Jesus Maria, como ideólogo na Doutrina de Religiosos: "Professamos uma Regla de ermitaños; Teresa não é fundadora dos frades: "é reformadora enquanto pode sê-lo uma mulher". Consequências: a Congregação se fecha no claustro e nas fronteiras geográficas (Espanha, Portugal - com exceção das fundações no nordeste do Brasil - e México). Reduz-se a atividade apostólica nos conventos; descarta-se de fato a atividade missionária, apesar de ter como espaço de expansão os territórios mais favoráveis que os da italiana para a evangelização (Filipinas e alguns lugares da Ásia, América e África) e de contar com o apoio do padroado. Aplicação à província do México: "As doutrinas e a Expedição Vizcaíno nas costas da Califórnia" (1602-1603). 3. Missões da Congregação de Santo Elias (italiana - 1597; 1600-1875) a) São aceitas depois de um exame sobre se as missões são próprias do Carmelo Descalço: intervenção decisiva de João de Jesus Maria (o "Calagurritano"): o "tratactus" e o "Votum missionum" (1605). b) As missões respondem ao apelo dos Papas; assumidas por julgá-las próprias de uma ordem mendicante e fundada por Teresa e realizando seus desejos apostólicos; na Congregação estarão sob a direção da Propaganda Fide. Missões da Congregação no século XVII a) Primeira missãoÇ Pérsia (Irã): saída dos missionários em 6 de julho de 1604; Cracóvia 1605; Ispahán 1607. b) Primeiro Capítulo Geral e as Missões (1605): Seminários das missões; a missão rutena. c) Capítulo Geral (1617): divisão da Congregação em Províncias. São seis as Províncias: 3 na Itália, 1 na Polônia, 1 na França, 1 na Bélgica e Alemanha. As Missões estão sob a autoridade do Definitório Geral. A expansão missionária abre presenças na França, Flandres, Europa Central e Setentrional (1610-1620); em Bruxelas (1610), Paris (1611), Louvânia (1611), Colônia (1613), Londres (1615). Na terceira década se extende ao Império - Viena (1622), Praga (1624). No Oriente abre-se de Ispahán a Ormuz no Golfo Pérsico (1612), Tatta, atual Paquistão (1615-1672), Goa (1619-1620), Basora (1623), Síria e Líbano (1627) e Monte Carmelo (1631). d) Capítulo Geral de 1632 - Reafirmação da atividade missionária própria. Aspecto teresiano. Aceita-se o costume de incluir na renovação da profissão o voto de ir às missões se a obediência o mandar: "Insuper promitto...". e) Como organizar a missão no estilo carmelitano-teresiano (1650, 1683) - Em 1650 Domingo de São Nicolau, Vigário Provincial em Goa escreve "sobre a forma de nossas missões". - Em 1683 é publicada as "Instruções de Missões", com muitas exigências nos atos comunitários. 4. Século XVIII e primeira metade do século XIX a) Nascem os vicariatos de Bagdá, Gran Mongol e Malabar. b) No século XVIII adverte-se uma queda de entusiasmo missionário. Existe uma certa oposição às missões, freando algumas vocações ás missões. Era em parte um efeito negativo da leitura de livros de religiosos da Congregação Espanhola de tendência eremítica e traduzidos para o italiano e o francês. c) A Propaganda Fide confirma no dia 18 de fevereiro de 1734 o ofício de Procurador das Missões OCD diante da mesma Congregação, que será também Síndico das Missões. 5. As missões da Congregação de Santo Elias e do Carmelo Teresiano restaurado no século XIX A restauração do Carmelo na Europa coincide com a reorganização das missões católicas, realizadas pelo Papa Gregório XVI (1831-1846). As Ordens Religiosas e concretamente a Congregação Italiana - única Ordem dos Carmelitas Descalços a partir de 1875 - prestam uma atenção especial às missões a elas encomendadas. Renovação do espírito missionário e das missões na Igreja, particularmente na França (século XIX) Inicia-se a cooperação missionária do povo cristão (em 1818, Paulina Jaricot cria a "Propagação da Fé" e Mons Forbin Janson, em 1843, cria a Santa Infância). Nascem numerosas congregações missionárias. As Ordens Contemplativas vivem com paixão o problema missionário; fundam mosteiros em países de missão; oferecem sua vida pelos missionários.A restauração do Carmelo Descalço na Baviera, Flandres e França faz renascer a esperança para as missões na Mesopotâmia, Pérsia e na Índia, em difícil situação. O superior geral Clemente escreve ao P. Domingo: "infunda nos noviços o espírito das missões" (16.11.1841). 6. 1875: A Ordem sob um único Geral. Reativação das missões. a) O restabelecimento do Carmelo Teresiano na Espanha (sob a direção do P. domingo Arbizu de São José, geral da Congregação Italiana e com as Constituições desta) em Marquina (1868): esperança e força para as missões. As Províncias restauradas da Espanha, Bélgica e Baviera enviam missionários para a Índia: perdidos por falta de missionários, os Vicariatos de Bombay (1854) e Mangalore (1878), reagrupam os próprios missionários nas missões de Verapoly e Quilón. b) Cooperação missionária na retaguarda; começa a organizar-se na Bélgica com Adolfo da Mãe Dolorosa; um pouco mais tarde na Espanha com João Vicente (missionário na Índia - 1900-1917: primeiras iniciativas em 1918; visitador das missões na Índia em 1919 - de volta decide organizar o centro e a revista da "Obra Máxima". Na Itália dá-se início à publicação "O Carmelo e as Missões". c) Fundação de conventos de vida regular junto às residências missionárias nos territórios de missão (1901-1905). d) Grande expansão do Carmelo teresiano no continente americano, assumindo em muitas ocasiões o serviço paroquial (incluindo o Brasil - 1911: Porto Alegre (Província de Burgos); 1911: Sul de Minas (Província Romana).
7. O século XX: século das missões a) 1908: as missões são encomendadas a Províncias particulares. A Síria à Itália; a Mesopotâmia a Aquitânia; Quilón a Flandres; Verápoly a Navarra. Nascem as missões de Urabá, Sucumbíos, Esmeraldas, Tumaco e El salto na América Latina. b) Novas missões depois da segunda guerra mundial Depois da segunda guerra mundial, a maior parte das Províncias da Ordem aceitam assumir alguma missão sob sua encomenda. c) Novas missões na Ásia e Austrália: Filipinas (1947), Kuwait (1948), China (1948), Japão (1952), Coréia (1974), Austrália (1956); Taiwan (1982). d) Novas missões na África Além do Cairo (1926): Congo(Província da Bélgica em 1958 e Romana em 1968); Goma (1966, Prov. de Castilla); Kinshasa (1982), Bukavu (1990), Malawi (1963, Prov. de Navarra); Madagascar (1970, Prov. de Veneza); Burundi (1973, Prov. de Cracóvia); Centro-África (1971, Prov. da Ligúria); Tanzânia (1982, Prov. da Índia); Nigéria (1988, Prov. Irlandesa); República Popular do Congo (1988); Nairobi, Kênia (1991; 1999, Prov. de Washington); Burkina Faso, Costa do marfim (1993, Prov. de Valência); Camarões (1985, Prov. Lombarda). Estas novas missões africanas aparecem não como assunção de um território para sua evangelização e cuidado pastoral, senão como cooperação missionária às Igrejas jovens. Além da ação pastoral e missionária, erigem-se centros de irradiação espiritual e de oração, e abrem-se casas de acolhida e formação de vocações carmelitanas. 8. Províncias da América e Ásia assumem missões em seu país e fora (1981...) a) Índia: é dividida em 4 Províncias em 1981 e cada qual assume missões na Índia, África, Tanzânia e Indonésia. b) A Prov. de Taiwan abre casa em Singapura; a do Sul do Brasil abre casa em Apiacás, no centro-oeste do país; e a do México em Hueytlalpan. c) Depois da queda do muro de Berlin (1989) abrem-se missões na Ucrânia e Bielorrússia (1990), Sibéria Oriental, Romênia, Bulgária, Letônia. Em 2005 a Província São José do Sudeste do Brasil funda um convento em Handel, Holanda.